Pela manhã colhi uma delicada folha. Deixei que seu orvalho secasse ao calor de minhas mãos e nela escrevi uma palavra ainda sem significado. Uma nova palavra, algo fora de meu vocabulário usual, algo que de certa forma custou-me a escrever. Custou-me, de certa forma, vale ressaltar já que, a cada letra escrita, o carinho vibrava nas pontas de meus dedos. O que é isso? - me pergunto. Que sinto? - indaguei-me ao findar.
E como o destino dos pobres homens, soprei-a ao vento, a espera de que chegasse às alturas ao sabor das aragens diuturnas. Tentando encantá-la ao leme de minha alma, roguei que ela tivesse destino feito: que chegasse a porto seguro; que descansasse em leito brando e suave.
Confesso que ao fazê-lo, já tinha destino em mente, mas o vento por mais brando, direciona a outros pontos.
Falei com a relva e cantando junto ao sonoro eco do riacho à minha frente, ergui meus braços, em atitude de reverência ao sol. Luz de todos: dos brandos e humildes, dos desorientados e orgulhosos.
Fechei meus olhos e enquanto minhas palpebras se amorneciam com a luz dourada, lembrei-me de meu intento mais íntimo, de meu grito mais interno, do sentimento mais genuíno em mim.
E era tanto esse sentimento, tão tesouro meu, que preferi manter meus lábios unidos como se não quisesse deixar escapar o que existia e vibrava em mim. Há seres que nos ouvem - pensei eu, e não desejo que me amorteçam naquilo que mais me é.
A folha continua ao vento... E chove lá fora. Pergunto-me se a palavra tenha se diluído ante as gotas que caem, ou se tenha perdido a cor. Pergunto-me se ainda nas alturas, ou se já pousara nas mãos de Morpheu. Se Eros a lera, ou se Gaia a tenha acolhido ao chão.
***
A grande ilusão dos homens é a busca por controle absoluto pelo que é: há força maior regendo os passos. Escolhemos o que trilhamos, mas há nuances que nos fogem do entender.
Num inspirar e expirar de longo austo, continuo: Vejo o vento lá fora, tento absorver nova força, abraço lembranças queridas de momentos e, ao que vejo, há outrem que também o faz. "Escuta-me" - susurro. E ante ao silêncio que segue, de labios semi-cerrados, articulo uma única palavra: "Enlace" - a nota da melodia que absorvo lentamente enquanto deitado, observando a chuva.

Nenhum comentário:
Postar um comentário