- Pessoas como ele não entendem muito bem o que queremos, Mara. – disse eu enquanto ela repousava a xícara sob o pires com respingos de café – Eles querem aventuras. É mais fácil assim. Sem responsabilidades com os outros, sem responsabilidades consigo mesmos.
E Mara olhou-me interrogativa, como se esperasse a conclusão daquelas colocações.
- Acreditam que “aproveitar a vida” – continuei, utilizando os dedos indicador e médio a simular as aspas enquanto dizia – seja sair muito, gastar um tanto mais, “ficar” – e repeti o gesto outra vez – com quantas sejam as pessoas que lhes interessem. Emmanuel usa uma metáfora forte mas que não deixa de ter sentido: são como moscas a busca de detritos, das novidades provenientes do que chamam aproveitar.
Em gesto de concordância, bebericou outra vez o café, não se dispondo entretanto, a falar coisa alguma. Vendo aquilo como um assentimento para que continuasse, mais uma vez utilizei da palavra:
- Veja só o que te fez: inventou desculpas para sair com os amigos, quando a franqueza seria tão mais fácil de engolir. Evitou-te ...
- Porque será que as pessoas tem tanto medo de se relacionarem, Fer? – ela disse bruscamente, interropendo o que dizia, entretanto, chegando ao ponto mais grave da situação.
E aquilo me caiu como pedra no estômago.
Já havia me perguntado tantas vezes isso. Já havia por tantas noites passado em claro, absorto, ante a atitudes que não compreendia que, expressar minhas dúvidas, expressar o que achava ante ao que me perguntara Mara parecia algo difícil de verbalizar. E respirando pesadamente...
- Hmm... Sinceramente? Tenho várias idéias sobre isso; já li bastante também: alguns textos espíritas da Joanna, alguns outros do Jung... mas se posso dizer algo em poucas palavras, diria que é o medo de amar e se machucar com isso, diria também que seja devido à imaturidade de algumas pessoas, o medo de assumir responsabilidades, ou mesmo essa vontade de saciar o insaciável, porque não entendendo-se eles tentam encontrar nos outros aquilo que julgam faltar neles próprios. Mas tudo isso ainda parece bem superficial para mim. Há tantas variáveis que seria difícil analisar ou delimitar uma razão específica,... Vou te passar alguns textos sobre o assunto; você tem algum problema em ler em PDF?
- Ah, passa sim! Não tenho problema não.
Olhamo-nos por mais um tempo. Olhamos ao redor; quem passava ao redor e, ante ao hiato que se estendia, suspiramos em uníssono quando disse:
- E, pois é... hora de voltar ao trabalho... Vamos?
- Vamos... tenho umas coisas para fazer também.
Levantamos e seguimos rumo aos nossos afazeres.

Outra hipótese: talvez tenham "medo" de se relacionarem por ainda não terem compreendido o quanto pode ser bom!
ResponderExcluirSeria como aprender a andar de bicicleta sem rodinhas.. no início, dá medo.. caímos.. nos machucamos.. mas quando aprendemos a manter o equilíbrio, não queremos mais outra coisa! =)
Chris